sábado, 15 de fevereiro de 2014

Fórum de Ubatuba, uma história perdida no tempo...


Talvez, se morássemos em  um município com estrutu­ra turística, encontraríamos um guia local em frente aos nos­sos prédios antigos relembrando histórias de um passado glamoroso. Então, todos conseguiriam reconstituir em suas memórias um passa­do pouco distante do nosso dia-a-dia e que fizeram parte da construção de nossa reali­dade... boa ou ruim...
Imaginem a cena em frente ao Largo do Programa, posteriormente foi denomina­do Largo do Teatro e hoje Praça Nóbrega... Em 20 de maio de 1886, foi inaugurado um chafariz que, na ocasião, jorrava Vinho do Porto para todos os presentes. No lar­go, eram centrados todos os eventos de repercussão po­pular: folia de reis, danças, carnaval, movimentos políti­cos, enfim... pois ali também ficava o Teatro Ubatubense com capacidade para 1.200 pessoas.
Anúncios no jornal local da época atraíam o público, como, por exemplo, este edi­tado no Echo Ubatubense, ­Anno I, Ubatuba, 6 de ju­nho de 1897, N° 35, com os temas teatrais: "Os Pupilos do Escravo - drama em 3 actos"; "O Boiadeiro - can­ção cômica por um amador"; "Por um óculo - comédia em 1 acto, jocosa e cheia de pe­ripécias"; "O levantar da pri­meira Cruz em Ubatuba por Anchieta, fé, esperança e ca­ridade - quadro-vivo representado por gentis meninas".
Uma das peças chega a ser folclórica. Ubatuba já ti­nha passado por duas deca­dências, então se falava da construção de uma ferrovia que ligaria Ubatuba ao Vale do Paraíba. Em nome do pro­gresso, resolveram alguns homens importantes da época como Thomas Galhardo, Dr. Esteves da Silva, Cel. Gon­çalves Pereira e o ator ama­dor Gabriel Costa uniram-se para fazer uma peça que se chamava "Ubatuba nasce de novo!". Chamaram toda a eli­te da cidade e convidados e, em um dos atos "um cesto em formato de uma concha gi­gante trazia em seu interior uma criança com uma faixa escrita Ubatuba, representan­do a cidade. Quando abriram a concha, em pleno palco, Ubatuba (a criança) estava dormindo". Posteriormente, o mesmo prédio veio a sediar simultaneamente o cinema, que tinha intervalos para tro­carem o filme (supõe-se que o aparelho usado era o "super oito").
O tempo foi passando e, em 1957, o prédio foi demo­lido e construído o Fórum de Ubatuba, que funciona até os dias de hoje.
Os antigos contam que o Fórum sofreu  uma gran­de sabotagem, uma verdadei­ra queima de arquivo, literal­mente. O prédio sofreu um incêndio que queimou todos os documentos, pois antes funcionava o cartório de notas e imóveis e registro civil.
Assim, os grileiros não tinham como provar suas posses nas terras, que logo foram apossadas por outros, "pos­síveis interessados" (isto é o que dizem as más línguas).
Hoje o Fórum tem duas Varas e junto ao poder judi­ciário funciona também o Mi­nistério Público. Os outros encargos foram desmembrados e estão loca­lizados em pontos distribuí­dos pela cidade.
Existe um projeto de remoção do Fórum, pois o pré­dio já não comporta mais todo movimento do Judiciário.


Texto e foto: Claudia Oliveira





segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A origem brasileira de Mann - Flip 2013



A origem brasileira de Mann

Livro que será lançado hoje trata da ligação da família do alemão com o país; proprietário diz que fazenda onde a mãe do escritor morou em Paraty será centro sobre a cultura local

Por Thais Lobo

Os olhos eram azuis cinzentos. Mas, por vezes, tornavam-se “negros e brasileiros”. A descrição do filósofo Theodor Adorno para os momentos em que o escritor alemão Thomas Mann “encontrava a si mesmo” revela uma porção pouco conhecida da biografia do ganhador do Nobel de Literatura em 1929. Filho da brasileira Julia da Silva-Bruhns, Mann não chegou a visitar sua terra mátria, como ele mesmo se referia ao Brasil, mas carregou em sua literatura as raízes de uma cultura latina.
Autor de clássicos como “A montanha mágica”, “Morte em Veneza” e “Doutor Fausto”, Mann usou nesses e em outros livros referências sutis à origem estrangeira da família. Personagens femininas como a mãe de Hanno em “Os Buddenbrooks” e a do personagem-título de “Tonio Kröger” traziam em seu perfil um exotismo por terem nascido em terras distantes. Paulo Astor Soethe, professor de Letras na Universidade Federal do Paraná e autor do livro “Terra mátria — A família de Thomas Mann e o Brasil”, em parceria com Frido Mann, neto do escritor, diz que a sensibilidade para a condição do estrangeiro, para a multiplicidade cultural, é uma característica forte desde as primeiras obras do alemão.
— Numa carta escrita em 1943, ele disse que as histórias que ouviu da mãe foram o primeiro contato com o mundo estrangeiro. E esse aspecto é muito importante porque a constituição de diversos personagens na literatura deve-se em grande parte a essa experiência — explica.
“Terra mátria” será lançado hoje, em debate sobre o tema, às 20h, na Casa de Cultura. O livro traz documentos inéditos e mostra que, mesmo distante, Mann manteve-se em contato com a realidade brasileira. Trocou correspondência com uma prima em São Paulo e com o expatriado Karl Lustig-Prean, líder do grupo antinazista Movimento dos Alemães Livres do Brasil. O alemão ainda teve encontros com os brasileiros Sérgio Buarque de Holanda e Erico Verissimo, e foi cortejado por Gilberto Freyre para que aceitasse um convite da Academia Brasileira de Letras e visitasse o Brasil, o que acabou não se concretizando.
“Sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista. Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda de minha terra pátria deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria”, escreveu Mann em 1943, quando estava exilado nos Estados Unidos.
A ligação da família com o país atravessou gerações, de Thomas Mann e seu irmão Heinrich para o filho Klauss e o neto. Frido Mann veio ao Brasil pela primeira vez em 1994, com o intuito de fazer pesquisas históricas em Paraty, Ouro Preto e Salvador para o romance “Brasa” (1999), cujo título remete à cor vermelha do pau-brasil. Desde então, voltou ao país 16 vezes e escreveu outras duas obras que fazem parte de uma trilogia dedicada a temas brasileiros.
— Cheguei ao Brasil com um desafio literário, mas o desafio biográfico que se apresentou foi muito maior. Foi uma experiência muito marcante visitar a casa onde minha bisavó morou em Paraty, onde minhas raízes estão — afirmou, por telefone, Frido, que não havia lido praticamente nenhuma obra escrita pelos Mann até os 40 anos, quando voltou sua literatura para a história familiar.
O casarão onde Julia morou ainda existe e é motivo de briga entre a família Mann e o atual proprietário, o velejador Amyr Klink. A Fazenda Boa Vista foi a casa da matriarca até seus 7 anos, quando o pai alemão decidiu levar a família de volta à Europa, dada a morte prematura da sua mulher. O último proprietário do imóvel era uma empresa de papel e celulose que foi à falência, levando a um processo de venda judicial da casa. Em abril passado, Klink e outros cinco sócios conseguiram a transferência de posse em definitivo.
— Não tenho interesse em vender. Já estamos conversando com institutos culturais para fazer na fazenda um centro de referência ligado à história de Paraty — diz Klink, que pretende restaurar o engenho, o alambique e trilhas que eram rota de escoamento da cachaça. — Lamento, mas a cultura de Paraty é muito mais importante do que a obra de Thomas Mann para a cidade. Eventualmente podemos até fazer uma exposição do cara que fez “A montanha mágica”.
Frido pretendia transformar o casarão em um memorial da família e local de encontro de escritores e artistas, a Casa Mann. Para Paulo Soethe, o fracasso do projeto é lamentável num momento em que a literatura dos Mann pode ganhar mais projeção.
— A origem brasileira é uma dimensão inegável da obra de Thomas Mann e oferece uma ponte concreta entre os universos literários de Brasil e Alemanha. É uma literatura que já tem um caráter internacional. Soma-se a isso a popularidade da família na Alemanha. Lá os Mann são como os Kennedy para os Estados Unidos, ou os Windsor para a Inglaterra — afirma.

Fonte: Jornal “O Globo”, Suplemento da Flip, quinta-feira, 4 de julho de 2013, pág.7.
Extraído e adaptado por: Jefferson Daruich da Gama


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Zé Kleber - O beatnik de Paraty

    

 Por Mateus Campos


Único autor a batizar uma mesa na Flip, o paratiense Zé Kléber é um desconhecido para a maioria dos turistas que visitam a festa literária. Homenageado anualmente pela organização com um evento especial que discute a cidade e suas políticas públicas, ele sacudiu, ainda na década de 1960, as estruturas conservadoras de uma Paraty provinciana. Hoje, no evento que leva seu nome, o músico Gilberto Gil e a historiadora Marina de Mello e Souza participam do debate “Culturas locais e globais”, às 14h30m.
O cineasta Nelson Pereira dos Santos, que fala amanhã às 21h30m na Tenda dos Autores, dirigiu Zé Kléber quando este interpretou o Barão de Itararé na adaptação da obra de Graciliano Ramos “Memórias do Cárcere”. O diretor e a figura ilustre de Paraty conheceram-se há 50 anos.
— O Zé Kléber era um sujeito incrível, uma grande companhia, capaz de conversar sobre tudo. Autor e cantor de grandes serenatas. Naquela época, ele era o dono do poder cultural da cidade — explica o cineasta.



.
José Kléber Martins Cruz, nascido em 1932 e morto em 1989, deixou dois livros publicados, um compacto com suas músicas e incontáveis histórias sobre sua vida. Além de ator, escritor e músico, destacou-se como ativista político.
Foi no Rio, estudando na Faculdade Nacional de Direito, que Zé Kléber transitou pelas rodas intelectuais. Formado, voltou à Paraty para defender a cidade e a população local. O amor pelo lugar, que demonstrava nos poemas, aparecia também na profissão. Foi defensor público, professor e representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Perseguido após o golpe de 1964, o poeta foi escondido pela população, que se negou a dar qualquer pista de seu paradeiro aos militares e providenciou sua fuga. A desilusão com a política fez com que ele deixasse o Direito e decidisse abrir um bar.
— Quando ele voltou, sua vontade era defender a população da especulação imobiliária, ajudar o povo. Mas, com o tempo, se decepcionou e decidiu trocar a advocacia pelas artes — conta seu irmão, Aldo Cruz.
Começava, então, a fase do desbunde. Zé Kleber fez amigos em todos os cantos e os trouxe a Paraty. A turma do cinema, como o diretor Luiz Carlos Lacerda e a atriz Leila Diniz, virou habitué do bar Valhacouto, comandado pelo poeta.
O breve período de existência do bar, de 1964 a 1967, foi suficiente para que momentos que beiravam o realismo fantástico se passassem em suas dependências. Durante uma festa, por exemplo, Dom João de Orleans e Bragança, herdeiro da família real brasileira e morador da cidade, ordenou que todas as portas fossem abertas para que ele entrasse à cavalo. Lá dentro, sem descer da sela, ergueu os braços e proclamou a fundação de um fictício “Principado Livre de Paraty”, para delírio de todos os presentes.
Em 1969, Zé Kleber foi vice-campeão do Torneio Nacional da Poesia Falada, promovido pela Secretaria de Educação e Cultura do estado, no Theatro Municipal do Rio, com seu “Lamentações sobre muros de Paraty”. A dedicação aos versos rendeu dois livros: “Praia do sono” (1957) e “Vertentes do paraíso” (1983). No cinema, participou de inúmeras produções. Só de Nelson Pereira dos Santos, foram quatro.
No fim da vida, voltou a se interessar pela política e, em 1988, elegeu-se vereador pelo PDT. Quando foi assassinado por um posseiro que se instalou em sua fazenda, pretendia tornar Paraty um lugar de referência para o cinema nacional. Sua morte consternou toda a cidade. O mesmo mar que chorou “lágrimas e redes nas praias do mundo”, em seu poema “A morte do pescador”, chorou também pelo poeta.
— Eu não me conformo. Toda vez que vou a Paraty, acho que ainda vou encontrar o Zé Kléber na porta do Valhacouto — diz Nelson Pereira dos Santos.

Fonte: Jornal “O Globo”, Suplemento da Flip, quinta-feira, 4 de julho de 2013, pág.6.

Extraído e adaptado por: Jefferson Daruich da Gama

José Kleber - Exposição / julho 1997

Clicando no link http://issuu.com/daruich/docs/namee609f4 você terá acesso ao fôlder (áudio-book) da exposição em homenagem ao poeta Zé Kleber realizada em julho de 1997 na Casa da Cultura de Paraty/RJ ou se preferir pode visualizar o mesmo nas fotos abaixo.







Cedro (Cedrella fissilis)

Saiba mais em : http://www.umpedeque.com.br/site_umpedeque/arvore.php?id=652











sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quaresmeira (Tibouchina granulosa)

Quem transita pela Rio-Santos, trecho Ubatuba-SP/Paraty-RJ, nesta época do ano é presenteado com a beleza das flores das quaresmeiras.
A quaresmeira é uma planta heliófita (exige luz solar intensa para viver).